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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: Os Descendentes

Às vezes as coisas acontecem como em "Crônica de uma Morte Anunciada" de Gabriel Garcia Marquez, os fatos seguem uma ordem determinada que não desvia de um previsível final. Mas esse não é o ponto principal de "Os descendentes", na verdade o que se anuncia desde o começo do filme é a razão indireta pela qual os personagens são postos aos olhos do espectador, já que o filme trata essencialmente das relações familiares conflituosas.

George Clonney concorre a melhor ator pelo papel de um advogado, milionário herdeiro de um punhado de terras nativas no Avaí, cuja esposa sofre um acidente na primeira cena do filme e entra em coma. Sua constante ausência paterna é sentida pelas suas duas filhas com as quais tem enorme dificuldade em se relacionar.
 
Parece um dramalhão, mas na verdade o filme é conduzido de maneira bem leve por um dueto que funciona muito bem, a alternância entre belas paisagens e uma ótima música havaina de fundo. Nesse aspecto, lembra um pouco o estilo de Woody Allen visto em filmes como "Meia-Noite em Paris".

Aos olhos do azul do mar havaiano a grande questão posta pelo filme se refere à relativização das dores, ou seja, em vista da dor inevitável da perda, o que acontece com as dores menores? Se na sabedoria popular "todo morto vira santo", na verdade o filme trata da construção de uma redenção indiretamente, por meio do amor das outras pessoas, e da forma como essa construção se assenta nas dores que vão sendo superadas.
 
Todo o filme que leva a algumas reflexões pode ser por vezes considerado um bom filme, eu diria que "Os descendentes" atinge esse estágio com uma mistura de drama e lirismo, mas suas chances na briga pelo Oscar devem estar restritas à estatueta de ator para George Clooney, que deve enfrentar certa concorrência.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI


 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: O Artista


Às vezes o que outrora fora superado pela inevitabilidade do novo se torna simplesmente antigo, outras vezes, o antigo renasce à frente do novo, e se coloca como uma forma revolucionária de enxergar a realidade posta nos dias de hoje, categoria na qual é possível enquadrar “O Artista”.

Na origem latina, o termo “ars” significa habilidade ou técnica, que era exatamente o que George Valentin, o astro de “O Artista” exalava nos filmes mudos, um carisma que substituía a falta de som ou diálogo coreografada pela música.


O filme aborda, então, a revolução do som, e o efeito catastrófico criado por esse som, a superação da magia pela realidade, a queda de grandes ídolos que não conseguiram se reinventar ao som impiedoso do amanhã.

No início, achei que teria uma grande dificuldade em assistir a um filme mudo e em preto e branco, um preconceito que foi sendo superado pela leveza sustentável do espetáculo posto, pela mistura de comédia, drama e romance, pela música inebriante do silêncio que possui a incrível capacidade de dosar a dor da perda esperada com o despertar das paixões inesperadas.


Se o cinema falado salvou Hollywood da ruína financeira após a grande depressão, o cinema mudo retratado por “O Artista” se coloca como um velho sobrevivente que arranca um sentimento por vezes melancólico, por vezes, reverencial, como se a história do cinema devesse um tributo àqueles que transformaram a arte em indústria de arte.

O filme tem um enorme potencial para receber o Oscar de melhor filme, pois o Oscar deve a filmes como este a sua própria razão de existir, a arte. Jean Dujardin, excelente, merece um Oscar de melhor ator por retratar o auge e a decadência de um homem que falava com um sorriso, em cujos pesadelos soava o pesado e destoante som dos objetos que rompia a leveza do silêncio. Belíssimo filme!

"Somente a Arte, esculpindo a humana mágoa,
Abranda as rochas rígidas, torna água
Todo fogo telúrico profundo.
E reduz, sem que, entanto, a desintegre,
À condição de uma planície alegre,
A aspereza orográfica do mundo!"
Augusto dos Anjos, Eu: Monólogo de uma Sombra

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Oscar 2012 - Histórias Cruzadas (The Help)

Em 1988, o grande Alan Parker dirigiu o incendiário “Mississipi em Chamas”, filme que retratava a atuação da Ku Klux Klan, que aterrorizava o Sul dos EUA com a conivência dos Estados da Federação. O filme abordava especificamente a morte de três ativistas negros em uma pequena cidade do Mississipi, no período em que vigoravam as “Leis de Jim Crow”.

Em julgamento polêmico os acusados pelos homicídios, pastores e outras autoridades locais, foram absolvidos pelo crime, o que provocou uma onda nacional de revoltas que culminaram na assinatura da Lei dos Direitos Civis, pelo então presidente Lyndon Johnson, em 1964. Mais de trinta anos depois, em novo julgamento, os assassinos foram condenados.


A história do excelente “Histórias Cruzadas” se passa justamente no início da década de 60, e mostra o que aconteceu nos Estados do Sul após a abolição da escravidão, no fim da Guerra de Secessão, em 1863, a transformação da escravidão em instrumentalização racial do trabalho.

Com o fim da escravidão, não houve qualquer tipo de integração dos escravos à sociedade, ao contrário, a falta de uma política social de caráter nacional permitiu que os Estados do Sul da Federação editassem as chamadas “Leis de Jim Crow”, que instituíam a segregação racial como política pública e privada, criminalizando as relações interraciais, proibindo que crianças negras freqüentassem escolas, proibindo a utilização de banheiros públicos, transportes públicos.



A questão humana é a alma do filme, o que move a atuação das três principais personagens da trama, Aibilleen (Viola Davis na briga pelo Oscar de atriz) e Minny (Octavia Spencer, favoritíssima na briga por atriz coadjuvante), e a jornalista Skeeter (Emma Stone, em bela atuação), que atuam em uma perfeita sintonia que caminha com propriedade na fronteira entre o drama e a aventura, com algumas pitadas de comédia, e contam com o apoio de um grande grupo de atrizes, em um filme carregado pelas mulheres, o que fez com que alguns críticos o comparassem com certa razão a “Tomates Verdes Fritos”.

O filme conta uma história de coragem, dos testemunhos do racismo que deram origem a um livro escrito a seis mãos pelas três personagens principais, desafiando o conservadorismo e a opressão na luta pela dignidade, que numa visão kantiana pode ser entendida como um valor inalienável por excelência, um valor que move a história em determinados momentos, constrói revoluções como as vistas no filme.

A essência do filme é expressa de forma primorosa pela mãe de Skeeter, ao dizer para a filha que “a coragem às vezes pula uma geração, obrigado por trazê-la de volta para esta família.”.

Filmaço! O filme com mais conteúdo na briga pelo Oscar 2012. Baseado no livro “The Help”, publicado em 2009.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI


Oscar 2012: Tão forte, tão perto (Extremely Loud and Incredibly Close)



Sei bem como o garoto de "Tão forte, tão perto" se sentiu quando seu pai foi irremediavelmente retirado de sua vida. Sei o que significa "o pior dia". Sei, porque para mim a morte repentina de meu pai deixou traumas profundos e marcou uma divisão importante entre a infância, dias felizes, união familiar e a vida adulta, fim dos sonhos, a dura realidade da efêmera existência humana.

No filme, a harmoniosa relação entre pai e filho torna o impacto da inesperada morte, de uma forma tão aterradora como foram os atentados de 11 de setembro, em um acontecimento que não se aceita e que, principalmente, não se explica.


Oskar Schell, o personagem do estreante - e já talentoso - ator mirim (Thomas Horn), ao achar uma chave em meio aos objetos de seu pai, sai à procura da fechadura para qual ela foi criada. Para isso, precisa percorrer a cidade de Nova York, encontrando várias pessoas com o sobrenome Black, que possam ajudar a desvendar o mistério. Desta forma, o garoto tenta ter uma última convivência paterna, assim como também dar algum sentido para a tragédia, buscando encontrar em uma possível última mensagem de seu pai. Esse tema é até bastante similar ao apresentado no filme "Hugo Cabret". Logo no começo do filme, Oskar fala sobre a "presença ausente" de seu pai, comparando com a explosão do sol:

"Se o sol explodisse, só daríamos conta oito minutos depois. Porque este é o tempo que leva para a luz chegar até a gente. Durante oito minutos ainda haveria claridade e ainda faria calor. Fazia um ano que meu pai morreu e eu sentia que meus oito minutos com ele estavam se esgotando...

A corrida de Oskar durante o filme significa exatamente esses oito minutos em que ainda é possível sentir os resquíscios da presença de seu pai, antes da inevitável e dura realidade se apresentar definitivamente e a "ficha cair".


Thomas Schell, em interpretação "exageradamente natural" de Tom Hanks, é um pai afetuoso e uma pessoa extremamente criativa que sempre tentava estimular a curiosidade de Oskar, criando "expedições" pela cidade. Com isso, ele tinha como objetivo fazer com que o filho, portador de um distúrbio que afeta a socialização, interagisse com outras pessoas.

O filme apresenta de forma bastante competente uma narrativa não linear, na qual são apresentados flashbacks mostrando o relacionamento entre pai e filho. Em um deles são mostradas as divertidas guerras de oximoros que os dois costumavam ter, mais uma forma interessante de estimulo à imaginação e conhecimento do filho.

Destaque para o papel do ator veterano Max von Sydow, que inclusive está concorrendo a uma estatueta do Oscar de ator coadjuvante, no qual representa um senhor misterioso que se comunica apenas escrevendo mensagens e vira companheiro do garoto em sua busca. Seu personagem permanece mudo por todo o filme, desta forma o ator teve que expressar sentimentos através apenas de expressões faciais e corporais, fato que só realçou sua atuação.


A história é adaptação do livro de mesmo nome de Jonathan Safran Foer, lançado em 2005. É interessante constatar que quase todos os filmes indicados nesta edição do Oscar são adaptações de livros, como Invenção de Hugo Cabret, The Help, Os Descendentes, Moneyball e outros, a exceção de meia-noite em Paris e O Artista que tem roteiros originais.

Apesar de não ser americano, entendo a tragédia que o 11 de setembro representa para os americanos e lembro de no dia ter me emocionado em frente à tv, sem entender ao certo se o que eu estava vendo era vida real ou ficção, tamanha a gravidade dos acontecimentos (virou lugarcomum perguntar "onde você estava naquele dia?"). Apesar de alguns críticos afirmarem que o filme tenta explorar a tragédia do 11 de setembro de uma forma exagerada para sensibilizar a platéia, os fatos são contados indiretamente e os atentados terroristas servem apenas de pano de fundo para a busca do protagonista. "Tão perto e tão forte" é um filme que trata de um tema ainda delicado, e o conta de uma forma instigante através dos olhos de um garoto que enfrentou o trauma, a dor e conseguiu seguir em frente, história, aliás, similar a de muitos familiares das vítimas do ataque às torres gêmeas.





Veja também o trailer do filme:


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: A Invenção de Hugo Cabret

Uma história é contada não apenas por uma sucessão de personagens, fatos e ações, ela é contada principalmente pelo olhar do narrador, seus sonhos e a sensibilidade com que transmite sua percepção da vida, das dores e dos amores. Scorsese foge um pouco do universo da máfia, onde fez história, para contar uma história que Rubens Ewald Filho chamaria com razão de sensível, e prestar sua homenagem à história do cinema.
Hugo Cabret é um garoto de 12 anos que perde o pai, relojoeiro, e por algumas circunstâncias da vida vai morar na estação central de trens de Paris, um lugar por onde circulam diversos personagens que ostentam um charme próprio, com destaque para a atuação de Sacha Baron Cohen, o Borat, como o inspetor desajeitado apaixonado pela florista, e o dono da loja de brinquedos Ben Kingsley.
As lembranças do pai e a busca por repostas se misturam ao surgimento de uma amizade com a sobrinha do dono da loja de brinquedos, Isabelle, menina que sonha em viver uma grande aventura, transpondo o mundo dos livros.
Numa das belas frases do filme o pequeno Hugo conforta Isabelle dizendo que enxerga o mundo como uma enorme máquina, e que pela sua experiência consertando máquinas, não existem peças desnecessárias em uma máquina, tendo cada peça a sua devida função e importância nessa engrenagem, ainda que cada peça não saiba sua função.
A aventura de Hugo e Isabelle pelo mundo dos livros, filmes e máquinas desemboca em uma homenagem a um dos pioneiros do cinema, George Meliès, prestada pela lente sensível de Scorsese.
 

Um belíssimo filme, que mostra que com idealismo e coragem é possível tentar consertar o mundo, ou ao menos torná-lo um lugar melhor, com bela fotografia e impecável direção de Scorsese, entra na briga pela estatueta de melhor filme com "O Artista", mas talvez fique apenas com o prêmio pela direção, roteiro adaptado, e uma porção de merecidos prêmios técnicos pela construção de um universo mágico iluminado poeticamente pela Torre Eiffel e pelas estrelas.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: A Árvore da Vida


 Em 1999, enquanto um dos melhores filmes de guerra já feitos "O resgate do soldado Ryan" colecionava prêmios mas perdia o Oscar de melhor filme para "Shakespeare Apaixonado" eu me impressionava com "Além da Linha Vermelha" de Terrence Malick, um filme de guerra poético e psicológico.

A poesia de Malick está na forma como relaciona belas fotografias com reflexões filosóficas e coloca a ação num terceiro plano, como uma consequência natural dos outros dois. A lógica ilógica da guerra servia como um fio condutor de um drama narrado em primeira pessoa por diversos personagens que questionavam cada um ao seu modo, o seu lugar numa batalha daquela magnitude, contrapondo lembranças do passado e a realidade sangrenta mas paradisíaca do presente.


Eu senti falta desse elemento condutor da trama em "A Árvore da Vida", pois como a trama trata essencialmente das relações familiares, dos questionamentos existenciais sobre a vida, a fé, da busca por respostas para as dores, o filme fica paralisado no tempo, o que é um verdadeiro paradoxo, pois Malick tentou por meio da fotografia dar uma vazão temporal ao filme, voltando à criação do mundo numa sequência de belas paisagens que por vinte minutos pareciam compor um programa da National Geograthic.
As questões que se colocam no filme são realmente importantes, e já inspiraram cientistas, teólogos, escritores, artistas, poetas, mas a ausência de um elemento dinâmico como condutor da narrativa retira a dinâmica do filme, que por diversas vezes lança as mesmas perguntas feitas por narradores diferente, o pai rígido e religioso, a mãe companheira e submissa, o filho mais velho que alternava entre a busca pela aprovação do pai, e o complexo de Édipo na relação com a mãe. O filme mostra o que acontece com a vida desses narradores a partir da morte acidental de um dos filhos.
Não é um filme fácil de assistir, também não sei se é necessário assistí-lo, mas se o fizer, tente ir até o fim dessa experiência, não muito indicada para dias tristes. O filme não deve brigar pelo Oscar, talvez uma merecida premiação pela fotografia, mas serve para manter a aura artística e pouco convencional ou comercial de um diretor que escreve e dirige filmes quando tem uma idéia que entende valer a pena, e recebe uma fila de grandes atores à sua porta para participar de suas jornadas épicas como as emoções humanas e as belas paisagens.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: Meia-Noite em Paris

Numa manhã qualquer, enquanto andava pela Av. Paulista, fui parado por uma repórter da Record que me fez uma pergunta estranha: qual a diferença entre usar óculos e lentes de contato? A minha resposta foi mais estranha que a pergunta, razão pela qual não apareci na Tv, eu disse a ela que a diferença residia na imersão dentro da realidade posta aos seus olhos, pois se com os óculos há um enquadramento da realidade tal qual uma cena de um filme, citando Wim Wenders no documentário "A Janela da Alma", ao passo que as lentes de contato possibilitam uma imersão interativa na realidade vista. Se essa frase de Wenders já tinha me marcado a ponto de recomendar aos telespectadores do programa da Record que assistissem ao filme, ver "Meia-noite em Paris" me levou a uma reflexão profunda sobre a questão, de forma que Woody Allen mergulha de forma tão profunda em seus filmes, muitas vezes também como narrador presente e protagonista, que se contrapõe à lógica proposta por Wenders. Esse é o ponto que me marcou no filme de Allen, pois o personagem de Owen Wilson não é apenas um apaixonado por Paris, ele utiliza a cidade e as viagens aos anos 20 como a sua forma de imersão no seu livro. Essa é uma questão que os professores não ensinam no colégio, como se escrever fosse um processo que se desenvolvesse apenas pela relação entre criatividade, conhecimento e capacidade argumentativa.
Escrever é muito mais complexo do que isso, é realmente o ato de imersão na realidade criada, o afastamento do real, que possibilita ao escritor o retrato fiel das experiências, aromas, gostos, sensações. Quando comecei a escrever, para preencher as linhas do papel em branco eu ouvia "Indiference" do Pearl Jam, depois percebi que funcionava com o CD inteiro, mas o afastamento da realidade, ainda que por um momento muito breve constrói o processo criativo. Daí a importância da escolha de Paris como cenário no filme de Allen, pois ele reverte a lógica da fórmula física que equaciona a velocidade à relação entre tempo e espaço. Paris é por essência uma cidade atemporal, sua estrutura arquitetônica permite que nela se passe uma história que retrata a Belle Epoque, os anos 20 ou o século XXI, sem que se altere o espaço. Assim, a velocidade posta nos passos de Owen Wilson equivale ao tempo, que se coloca para traz com a mesma facilidade com que o escritor busca se inserir nos anos 20, e apenas dessa forma retratar com honestidade os sentimentos, as angústias, o gosto da chuva caindo, o perfume da cidade. O filme não é uma homenagem a Paris, mas uma homenagem ao ato de escrever, e Allen, com maestria, é capaz de relacionar a experiência artística com um mergulho no mundo dos sonhos, como de fato o fez num grande filme, com boas chances de arrematar uma estatueta pelo Roteiro Original.
Deixo algumas palavras de Hemingway, retratadas no filme:
“Por vezes, quando começava uma nova história e não sabia como progredir… levantava-me, olhava para os telhados de Paris e pensava: ‘Não te preocupes. Sempre escreveste e também hás-de escrever agora. Tudo o que tens a fazer é escrever uma frase realmente verdadeira. Escreve a frase mais verdadeira que conheces.’ Acabava, assim, por escrever uma frase verdadeira e, a seguir, partia daí. Nessa altura, era fácil, pois havia sempre uma frase verdadeira que eu conhecia, ou tinha visto ou ouvira alguém dizer.”— E. Hemingway, Paris é uma Festa.
 Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Oscar 2012: Cavalo de Guerra

Um filme de Spielberg é sempre um filme de Spielberg, e só por esse motivo já valeria a pena assistir a Cavalo de Guerra, adaptação para o cinema do livro homônimo.

A mistura entre emoção e aventura é uma marca característica do diretor vista em filmes como "O império do Sol", "A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan". Se esses três filmes falam sobre a guerra, o mesmo acontece com "O cavalo de guerra", é como se Spielberg visse um conflito da magnitude de uma guerra como o cenário catalizador do caráter humano, pois permite uma maior exteriorização do significado de honra, lealdade, coragem, determinação.

Ao contrário de outros diretores que já fizeram grandes filmes onde a guerra é questionada pelos próprios soldados, algo visto em "Além da Linha Vermelha", "Apocalypse Now", "Platoon", a lógica de Spielberg não conduz a esse tipo de questionamento, sua crítica à guerra é vista na força das imagens de batalha, na dor experimentada pelos personagens que não questionam o porque de estarem lá.



Em "Cavalo de Guerra" a trama é conduzida pelos caminhos e descaminhos de um cavalo determinado, que ganha a admiração das pessoas pela manifestação incessante dessa determinação. A coragem é o fio condutor de uma trama que aborda não apenas os horrores da guerra, mas a construção de verdadeiras histórias de amizade dentro desse mundo de horror.

Destaque para uma magnífica cena próxima do fim do filme que se passa entre as trincheiras alemãs e inglesas, que mostra o devido lugar do nacionalismo numa situação verdadeiramente atípica dentro do quadro irracional da guerra.

Belas paisagens que podem render um oscar de fotografia e a magia de Spielberg valem o ingresso para assistir a um filme que não fará feio na disputa pelo oscar de melhor filme, pois a coragem é uma virtude rara, que se torna ordinariamente comum nas imagens líricas postas pela câmera de um diretor como Steven Spielberg.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI 


sábado, 28 de janeiro de 2012

Oscar 2012: O Homem que Mudou o Jogo




Vendo uma piadinha no facebook que brincava com Mussum e Matrix, lembrei da história de Zacarias. No programa Trapalhões posterior à sua morte, Dedé Santana começou a fazer um discurso para anunciar o seu substituto, para finalizar apresentando "ninguem" pois Zacarias era insubstituível.

Num filme que originariamente se chama "Moneyball" Brad Pitt poderia ser confundido com "the man who sold the world" de David Bowie, pela facilidade com que substituía seus jogadores sem que esses soubessem dessas negociações de bastidores criando uma nova lógica, a do ordinariamente substituível.
Mas o filme não trata disso, trata da busca da redenção por um homem que mesmo dentro de uma indústria pré-constituída que acabou com seus sonhos, consegue se colocar como um observador externo dessa indústria a ponto de subverter sua lógica.

A conversa com o economista e fiel escudeiro Peter no começo do filme lembra a clássica cena de "Uma mente brilhante" em que Nash idealiza a "teoria dos jogos" bêbado, num bar, pois esclarece o que se coloca por trás da irrazoabilidade do mundo do esporte e insere a idéia central do filme aos olhos do espectador, que mais importante do que buscar respostas para perguntas já postas é procurar entender o porquê dessas perguntas.

O filme caminha no ritmo da respiração de Brad Pitt, acompanhando sua esperança, raiva, desilusão, euforia, como a sinfonia que rege a plasticidade do esporte, as paixões e o romantismo que movem o coração do torcedor.

Esse romantismo é por vezes negado e por vezes lembrado pelo homem que buscou enxergar seu mundo de uma outra forma, e construiu uma história que rendeu mais do que um ótimo filme de esporte, um filme sobre a busca pelo sentido das coisas que infelizmente parece não ter muitas chances no quesito melhor filme ou ator, mas pode abocanhar uma merecida estatueta pelo roteiro adaptado. Belo filme, ainda em pré-estréia, com estréia programada para a próxima semana.


Destaque para a atuação de Jonah Hill, o gordinho de óculos de "Superbad - é hoje" em atuação que lhe rendeu uma merecida indicação a ator coadjuvante como o parceiro de Brad Pitt.

Comentários de FREDERICO POLES BORGONOVI

Veja o trailer do filme: